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O
professor e pesquisador do Instituto de Biociências da UFRGS e integrante da entidade
ecológica IGRE, Ludwig Buckup, participou nesta quinta, dia 19, de entrevista online no
clicRBS. Buckup foi questionado pelos internautas e jornalistas do clicRBS sobre os riscos
ambientais do plantio de grandes extensões de pínus e eucalipto na Metade Sul do Rio
Grande do Sul.
Conforme
o especialista, estudos recentes apontam para o alto consumo de água das plantações de
espécies exóticas no sistema de monocultura, causando a extinção de variedades da
flora e fauna, além da redução da quantidade de água presente naturalmente na região
do plantio. Confira a íntegra da entrevista.
Ludwig
Buckup: Oi, boa tarde. Estamos aqui para conversar sobre as monoculturas.
clicRBS:
A Aracruz e a Stora Enso anunciaram neste ano que passou grandes investimentos no Rio
Grande do Sul para a produção de celulose. O Estado é adequado para este tipo de
indústria? O clima e o solo gaúchos são adequados para as plantações de árvores
necessárias à produção de celulose?
Ludwig
Buckup:
Decididamente não. Motivos: a área escolhida, Metade Sul do Estado, é um bioma de campo
(Pampa), com solo, clima e vocação sócio-ambiental impróprios para florestamento com
espécies exóticas, como o eucalipto e o pínus.
Internauta:
Professor,
quais serão os impactos ambientais no sul do RS após as plantações das árvores
exóticas?
Ludwig
Buckup:
A revista Science de 23/12/2005, página 1944, publicou excelente artigo mostrando que as
plantações de eucalipto no pampa argentino reduziram o fluxo de água dos rios em 52%,
secaram 13% dos rios, córregos e arroios, aumentaram a salinidade e acidez do solo, em
apenas um ano após o plantio. O mesmo pode acontecer no pampa sul-brasileiro.
Internauta:
Professor, que outras culturas são adequadas para a Metade Sul?
Ludwig
Buckup:
Aquelas que se ajustam à vocação sociocultural da região, ou seja, uma integração
equilibrada entre pecuária extensiva, plantios diversificados em rotação de cultura e
processos vários de fixação do homem ao ambiente no qual nasceu e ao qual permanece
vinculado por laços culturais.
Internauta:
Como o senhor avalia a atuação da Fepam na liberação das licenças para o plantio
desse tipo de cultura?
Ludwig
Buckup:
A Fepam é órgão executivo do governo do Estado. Não tem espaço nem poder de caráter
deliberativo. Até aqui tem sido totalmente incapaz de fiscalizar as plantações de
exóticas já realizadas no Estado. No planalto o pínus está sendo plantado até a
margem dos rios, após destruição da mata ciliar e até para dentro dos capões de
pinheiros nativos remanescentes. Qualquer licenciamento só poderia ser liberado após
extensos investimentos em zoneamento ecológico, avaliação das qualidades do solo e das
reservas de água no espaço natural.
clicRBS:
E se a Fepam não fiscaliza as plantações e não sabe quais as conseqüências do
cultivo de árvores, como essa atividade vem sendo permitida? Não caberia à Fepam
decidir ser é possível ou não plantar determinadas culturas?
Internauta:
O
que falta à Fepam é pessoal para fiscalizar ou vontade política para realizar essa
tarefa?
Ludwig
Buckup:
A Fepam deveria poder decidir, mas não o faz. À Fepam faltam recursos humanos e
materiais. Em termos de gerenciamento percebe-se que o órgão perde um tempo enorme com
as questões de balcão e apagando os incêndios administrativos. E politicamente, a Fepam
depende das decisões políticas das esferas superiores e que pensam de forma
completamente diferente.
clicRBS:
O governo estimula esse tipo de cultura através do Plano Nacional de Florestas (PNF),
oferecendo recursos para o plantio de árvores para celulose. Estes dados apresentados
pela Science não são suficientemente fortes para que o governo reverta esses
financiamentos?
Ludwig
Buckup:
Os argumentos da Science são fortes sim, convincentes e indiscutíveis. Só que os
órgãos do governo não lêem o Science, mas sim lêem propostas para aumentar a
arrecadação de tributos, agradar aos investidores estrangeiros e pensando nas próximas
eleições.
clicRBS:
O professor da UFRGS Carlos Nabinger defende novas técnicas de pecuária que teriam baixo
impacto ambiental e garantiriam mais renda para os pecuaristas. Esta seria uma saída para
a Região Sul do RS, ou a pecuária também tem impactos na região?
Ludwig
Buckup:
O professor Nabinger, da Faculdade de Agronomia da UFRGS, fez recentemente excelente
palestra sobre a vocação dos campos sulinos. Demonstrou que com um pouco de assistência
técnica e aporte moderado de recursos materiais e financeiros, é possível aumentar em
200% a produtividade no referido ambiente.
clicRBS:
A Metade Sul do Estado vem sofrendo com a falta de alternativas de renda há décadas. Que
alternativas os agricultores e pecuaristas que estão partindo para o plantio de árvores
teriam? Que alternativas o governo e a sociedade civil poderiam oferecer a esta região?
Como a Metade Sul poderia se desenvolver, e não apenas gerar renda?
Ludwig
Buckup:
Sim, o ciclo da soja já mostrou que este modelo econômico expulsou o homem do campo para
a cidade. O plantio extensivo, fala-se em 28 milhões de pés de eucalipto, em nada
ajudará ao homem do pampa a viver em seu ambiente. Quem disse que o gaúcho do pampa quer
ser empregado da Aracruz, da Votorantin ou da Stora Enso? O que ele certamente busca é um
lugar para viver com sua família, poder alimentar os seus, criar seus animais e
participar de um uso sustentável dos recursos naturais oferecidos pelo meio em que vive.
o Eucalipto, tal como a soja, vai expulsar o homem para a cidade, engrossando o cinturão
de pobreza e exclusão social que hoje cercam as metrópoles.
Internauta:
Professor, 28 milhões de árvores são apenas algo como 25 mil hectares. Isto não
significa nada em termos florestais. Há controvérsias bastante sérias a respeito do
consumo de água pelas florestas plantadas. Estudos feitos pela USP indicam que elas não
consomem valores significativamente diferentes daqueles utilizados pela floresta natural.
Ludwig
Buckup:
Não estamos comparando plantação de eucalipto com florestas naturais, estamos
discutindo a inconveniência de plantar florestas em uma paisagem cuja potencialidade
bioecológica é o campo. Neste sentido vale lembrar o absurdo de argumentar que uma
plantação de soja também apresenta uma elevada evapotranspiração. Só que soja é
alimento e madeira de eucalipto destina-se à exportação, o que configura um caso
típico de privatização de lucros e socialização dos custos ambientais.
Internauta:
Professor, eu estou me referindo a consumo de água. Parece que Pínus e Eucalipto são
vilões e não são. São árvores que têm um potencial de adaptação e crescimento para
as condições brasileiras bastante importantes. O fato de serem originárias de outras
locais não as desmerece nem as transforma em 'bandidos'.
Ludwig
Buckup:
Plante 700 eucaliptos por hectare, então você vai ver que dá muito mais do que 25 mil
hectares.
Internauta:
O problema não está na Fepam. Está faltando discussão sobre o assunto, há muita
radicalização, com desconhecimento elevado. O senhor fala em milhões de árvores como
se fosse um absurdo. Quantos milhões ou bilhões ou trilhões (não sei bem) de pés de
soja são plantados por ano no RS, por ano?
Internauta:
Quantas pessoas vivem hoje no campo da Metade Sul? A pecuária não emprega tanta gente
assim.
Ludwig
Buckup:
A densidade populacional é baixa, certamente, mas políticas eficazes de apoio as
atividades agropecuárias da região e uma política de reforma agrária correta,
estimularão a criação de novas rotas migratórias para aquele espaço. Vejam o absurdo
como disse o jornalista Oca, adequadamente: Hoje estão destruindo as matas da Amazônia
para criar pastagens e aqui no sul estão plantando eucaliptos destruindo os campos de
pastagem.
clicRBS:
Existem outros impactos do plantio de árvores no campo além do problema da água?
Ludwig
Buckup:
Sim, além do problema da perda de recursos hídricos do solo existe o problema da
acidificação, da desertificação e da perda de nutrientes.
Internauta:
E qual é o impacto para as espécies silvestres?
Ludwig
Buckup:
Para as espécies nativas, a monocultura de exóticas com o pínus e o eucalipto
representa o seguinte tipo de impacto: A perda (extinção) de espécies nativas, a
modificação das condições ambientais e principalmente a biocontaminação dos
ecossistemas adjacentes por espécies invasoras como o Pínus elliottii. Na serra geral o
pínus já invadiu a mata atlântica em todas as áreas de contato.
Internauta:
O
senhor já visitou florestas plantadas bem manejadas? O senhor já ouviu falar que no
Paraná, em áreas de Pínus com quatro anos foram encontrados dois filhotes de puma? O
senhor, como ambientalista, deve saber que puma é topo de cadeia e para que ela exista é
necessário equilíbrio ambiental.
Ludwig
Buckup:
O puma é um péssimo exemplo. É um mamífero predador com grande deslocamento ocupando,
em suas caçadas espaços de quatro a cinco mil hectares ou mais. Ninguém disse que uma
plantação de pínus é biologicamente estéril. Mas como a diversidade biológica é
baixa, havendo quase nenhuma humificação das agulhas no solo e sem qualquer sub-bosque
herbáceo ou arbustivo, entende-se que pouquíssimas espécies animais fazem desta
plantações um lugar para viver e reproduzir-se de forma estável e permanente.
clicRBS:
Professor, a localização do Aqüífero Guarani tem relação com a escolha do sul da
América do Sul para o plantio de árvores (considerando o estudo da Science)?
Ludwig
Buckup:
O Aqüífero Guarani tem enorme importância no cenário da conservação da água na
América do Sul. A ameaça que existe vem da salinização possível, como a revista
Science demonstrou de forma cabal.
clicRBS:
Diversos pesquisadores e ambientalistas têm chamado a atenção para os riscos de se
plantar árvores da Metade Sul. Isso é suficiente para mobilizar o governo e a opinião
pública para que sejam feitos mais estudos, ou para que novas alternativas de
desenvolvimento sejam pensadas?
Ludwig
Buckup:
Será importante que toda a comunidade gaúcha se mobilize para que o governo reexamine a
proposta, já em fase de implementação, não autorizada, de cobrir o sul do Estado com
um enorme deserto verde. Eu participo de uma ONG denominada IGRE-Amigos da Água, que vem
priorizando a conservação dos recursos hídricos em todas as suas formas do Brasil
meridional.
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